Lulu deixou um bilhete na porta do quarto e foi viver uma aventura com seu amigo urso Rodrigo, sua amiga boneca Simone e sua "peculiar" amiga Rebeca, levando na mochila apenas o essencial: comida de criança, seus brinquedos preferidos, seu super disfarce e alguns elementos secretos que vão fazer com que ninguém consiga encontrá-la.

E é no meio desta grande aventura que Lulu encontra no palco o seu espaço para falar - e como fala essa menina! - mas nada melhor que um palco e um microfone para uma criança vacinada com agulha de vitrola.

Pelo depoimento de Lulu se apresenta o olhar irreverente e sensível de uma criança sobre o mundo das pessoas grandes: bem mais complicado do que parece, mas não tão diferente assim do mundo dos pequenos... 

 

Com a atriz Grazi Meyer e direção de Daniel Olivetto. Infantil. Duração: 50min. Classificação Indicativa: a partir de 4 anos.
 

A Lulu é a criança que eu nunca vou deixar de ser. Guardada num espacinho esquecido em mim, ou tomando conta completamente da minha vida ela carrega as lembranças mais gostosas de uma época cheia de cores, onde seres mágicos deixavam chocolate embaixo do travesseiro de quem dormia cedo na casa dos avós, irmãos eram super-heróis e o futuro era um lugar onde eu seria professora, astronauta e bailarina.

Ela é a soma das minhas memórias da infância com as que eu criei ao lado das crianças que mudaram a minha vida: dos meus primos mais velhos aos que nasceram há pouquíssimo tempo, meus irmãos mais novos e os filhos dos meus amigos.

As Aventuras de Lulu sempre me transportam de volta ao mundo lúdico e divertido da infância, ao lugar de sonhos e descobertas, de ideias únicas e onde tudo pode ser possível.

Estar em cena neste espetáculo é a minha brincadeira mais gostosa e me faz lembrar de que o que a gente precisa é muito pouco, cabe numa caixa de brinquedos, num sótão ou num abraço de pai e mãe.

1/3

SOBRE AVENTURAR-SE

 

“As Aventuras de Lulu” foi criado buscando estabelecer um diálogo distinto com o público infantojuvenil. Nessa montagem nos apropriamos da linguagem do stand up comedy com personagens para criar uma narrativa teatral através da qual uma menina de 6 anos encontra em meio a seus brinquedos um espaço no qual possa dizer o que pensa, compartilhar suas perguntas e entender o complicado mundo das pessoas grandes. Nesse espaço ela cria uma grande aventura cheia de perigos, fantasia e bom humor.

 

Mas antes de nascerem “As Aventuras de Lulu”, começava para nós como artistas uma aventura pessoal no qual pudemos adentrar um campo pouco conhecido: a comédia para infância e juventude.

 

O stand up comedy é um gênero muito popular entre os adultos e em nossa montagem, começamos a utilizar algumas ferramentas desta linguagem cômica, tais como o depoimento pessoal no microfone, a relação direta com a plateia e o humor característico.

 

Diante disto, partimos para a coleta de depoimentos de crianças entre 6 a 11 anos buscando conhecer seu olhar sobre temas como: a importância da família, o olhar para o futuro, o que crianças não compreendem sobre os adultos, e o que os adultos não compreendem sobre crianças. Este trabalho de pesquisa serviu também como um laboratório para a criação do texto, e as vozes dos pequenos entrevistados foram inseridas na dramaturgia, deram base para jogos cênicos e ações da personagem, além de servir como inspiração para a trilha sonora, que foi composta com canções de rock com roupagem infantil.

 

O resultado é um espetáculo que busca na simplicidade do depoimento explorar uma troca sensível entre crianças e adultos, flertando com aspectos documentais e autobiográficos. Assim, os depoimentos das crianças entrevistadas e as memórias cômicas e sensíveis da infância da atriz ganham em seu corpo (e em sua voz amplificada pelo microfone) uma forma de falar alto sobre o que uma criança pensa. 

 

A linguagem teatral sempre contribuiu para o desenvolvimento do ser humano, por ser uma arte cuja principal característica é o encontro presencial. Parece contraditório, entretanto, que essa arte de tamanha importância, sempre tenha o teatro infantojuvenil como uma espécie de subgênero.

 

Acredito sempre que é preciso buscar no teatro para crianças e jovens uma possibilidade de se reinventar, de fugir das receitas prontas, e acima de tudo de estabelecer um espaço de troca, conversa, encontro. Portanto, no que se refere ao compromisso com a qualidade e o desafio artístico não há (ou não deveria haver) nenhuma diferença entre fazer teatro para o público adulto e o infantojuvenil. O que muda é o público com o qual decidimos conversar. Acredito também, que o teatro infantojuvenil ideal é aquele que pode ser visto por todas as idades. Um teatro na presença daqueles que são e que foram crianças. Talvez todo espetáculo infantojuvenil, bem lá no fundo, fale sempre de uma mesma coisa: do tempo que passa, da criança que somos, fomos, e que ainda está ali escondida, pronta pra saltar pra fora da gente, quando uma peça de teatro nos leva às lágrimas, às gargalhadas, arrepios e tudo que só o teatro é capaz de fazer a cada encontro.

 

Daniel Olivetto - Diretor

LULU E A EXPRESSÃO DA CRIANÇA NO TEATRO

 

A criança aprende e entende o seu mundo através de sua imaginação, que se manifesta continuamente: ela parte do contato com a realidade cotidiana e o transforma em expressão pessoal e autêntica.

 

Trata-se de um universo fascinante para os adultos, pois acompanhar a riqueza poética do desenvolvimento do jogo simbólico é uma maneira de voltarmos a nos relacionar com a criança que todos fomos um dia.

 

As aventuras de Lulu é um projeto teatral que nasce de um interesse pela infância, pelo encantamento que a convivência com os pequenos e pequenas das mais diferentes idades provocou na atriz (e aqui, também dramaturga) Grazi Meyer que no contato com a lógica peculiar das crianças, decidiu que ela mesma podia olhar para sua própria trajetória e inserir essa delicadeza toda em histórias diversas, que ganham um tom delicado, por vezes patético, por muitas vezes engraçado.

 

Lulu, a personagem, cria diante de nossos olhos um espetáculo que é a manifestação pura do faz de conta para a criança. O faz de conta é patrimônio imaterial da infância, manifesto nas brincadeiras de imitação e de criação de mundos que ultrapassam os limites do cotidiano e oferecem às crianças a possibilidade de serem monstros, princesas, animais ou heróis. Neste contínuo brincar, ação e imaginação, realidade e fantasia, ficção e experiência vivida se misturam em uma espécie de magia que transcende a objetividade e limitação das coisas em si, tornando concreta a possibilidade de materialização dos mundos imaginados e desejados, compartilhados com seus parceiros de faixa etária, em um processo que atinge seu ápice entre os dois e oito anos de idade.

 

Lulu tem entre seis e sete anos mas o espetáculo que é construído por suas histórias atinge um grau de comunicação ótimo com crianças de todas as idades. Porém, dialoga com mais qualidade com crianças entre 04 e 10 anos, pois elas se identificarão e reconhecerão na personagem uma parceira de brincadeiras, uma colega de recreio, uma amiga com quem se pode fazer bagunça...

 

Para os adultos, é uma oportunidade de relembrar não só a própria infância, mas de reconhecer em Lulu a manifestação dessa interessante lógica infantil, uma oportunidade de ver um trabalho tão delicado na reconstrução desse comportamento encantador do desenvolvimento da personalidade. Certamente pais, estudantes de pedagogia, psicologia ou futuros professores serão capazes de encontrar material rico para pensar suas ações a partir das cenas do espetáculo.

Obviamente, a peça teatral não é feita apenas desse material racional. O trabalho de Grazi Meyer interpretando Lulu e as sutilezas da direção e da trilha do espetáculo fazem dele uma experiência única: não raro, na saída do teatro, é possível enxergar no sorriso das crianças e no olhar marejado dos pais um belo contraste que sinaliza o quanto o espetáculo é potente naquilo que se propõe.

 

Vicente Concilio