
Da Cabeça aos Pés
Prêmio Catarinense de Cinema – Edição Especial Lei Paulo Gustavo / 2023
Desenvolvimento de projeto de longa-metragem
Roteiro e direção: Renato Turnes
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Na noite que antecede a apresentação dos Doces Bárbaros em Florianópolis, o produtor do evento vive um encontro improvável com um garoto de programa, enquanto é perseguido por policiais determinados a impedir a realização do show.
Sobre o projeto Em 15 de julho de 1976, os Doces Bárbaros - o supergrupo formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia - se apresentaram em Florianópolis. O show, produzido pelo célebre jornalista Beto Stodieck, agitou a juventude da então provinciana capital catarinense. Em tempos de ditadura militar, a vinda dos tropicalistas provocava uma atmosfera de rebeldia e liberdade que varria a ilha ultraconservadora. Mas o evento acabou se tornando histórico por uma razão infame: a prisão de Gilberto Gil por porte de maconha. Sob o comando do delegado Elói Gonçalves, o hotel que hospedava os artistas foi revistado. Nos quartos de Caetano, Gal e Bethânia nada de relevante foi encontrado. No quarto de Gil, o delegado afeito à fama, titular da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes da Capital, que gostava do apelido de “terror dos maconheiros”, encontrou um baseado. A prisão do artista aconteceu na manhã do dia em que a apresentação estava marcada. Mesmo assim, depois de uma nervosa negociação, os músicos foram liberados para fazer o show, com a polícia nas coxias. Depois, Gil voltou à prisão. O delegado Elói nutria profunda antipatia por Beto Stodieck, que escrevia para o jornal O Estado naquela época. A relação de Beto com a vida noturna da cidade, suas opiniões controversas e libertárias, registradas em notas de sua coluna social que criticavam e debochavam das ações do delegado, e sua intimidade com a classe artística o faziam alvo dos mais importantes. Não por acaso, a casa de Beto Stodieck foi a primeira a ser revistada, sem mandado de busca. Não encontrando nada que o incriminasse, o próximo passo seria incriminar os artistas. Naquele momento a cidade vivia os efeitos da Operação Barriga Verde, marcada pela perseguição da Ditadura Militar a lideranças locais ligadas ao PCB. Poucos meses antes, ocorreram as mortes de Vladimir Herzog e Mario Fiel Filho, que deram mostras de que agentes da linha dura resistiam à proposta de 'Abertura, Segura, Lenta e Gradual' do Governo Geisel, iniciado em 1974. A soma dos fatos aponta suspeitas de que a prisão de Gil se inscreve na trama de resistência da linha dura à ideia aventada de abertura política, trama esta levada às últimas consequências pelo personalismo espetaculoso do delegado Elói. A prisão de Gil manchou a imagem de Florianópolis, provocando boicote de artistas, críticas contundentes na imprensa nacional e moldando uma reputação de conservadorismo que repercute até hoje. Da Cabeça Aos Pés ficcionaliza o que teria acontecido com Beto na noite anterior ao evento de 1976, localizando a ação a partir da proposta de reinvenção de memórias que orbitam o fato histórico e de um submundo dissidente na cidade da época. O roteiro parte de memórias contadas por pessoas LGBTQIAPN+ que viveram sua juventude nos anos 1970 em Florianópolis, dos dados históricos relativos ao show dos Doces Bárbaros e à prisão de Gil e das notas publicadas por Beto em suas colunas. Na segunda metade da década de 1970, a capital de Santa Catarina apenas começava a se abrir para as novidades culturais e comportamentais que sacudiam o mundo. A contracultura, o amor livre, as experiências lisérgicas e a produção cultural da juventude ainda encontravam a resistência de uma sociedade careta. Numa ilha assustada pelo desbunde que se anunciava nas grandes cidades, formas dissidentes de exercer afetos, expressões de gênero diversas e o pensamento libertário da geração tropicalista soavam como ameaça. Havia ainda o clima de repressão instaurado pelos governos militares e pelas ações truculentas da polícia local, notadamente a Operação Barriga Verde, que desafiava a livre existência de atitudes e discursos que provocavam a ordem normativa vigente. Algumas personalidades influentes do setor artístico e da comunicação estavam, pelo lugar privilegiado que ocupavam, autorizadas a expressar sexualidades diversas, mas para a maior parte da população hoje identificada como LGBTQIAPN+ essas experiências estavam condenadas ao sigilo, à proibição e à marginalidade. Não existiam lugares de convivência específicos para essas pessoas, o que não quer dizer que elas não encontrassem formas de compartilhar seus afetos e construíssem para si territórios mais seguros na conformação urbana da Ilha. Essas pessoas ocuparam especialmente a noite do Centro, pelas ruas históricas, bares e boates de frequência duvidosa e festas privadas sigilosas. A pesquisa que o diretor/roteirista desenvolve há alguns anos sobre a memória da população LGBTQIAPN+, e que já resultou em espetáculos e documentários, é explorada dessa vez na reimaginação de territórios e figuras icônicas que surgem nas narrativas e documentos sobre a época. Beto, o protagonista livremente inspirado no jornalista e agitador cultural que foi sinônimo de vanguarda, gay assumido e uma das primeiras vítimas conhecidas da epidemia da Aids em Santa Catarina, é o cronista contraditório e privilegiado dessa época. De carona no Dodge Polara de Beto temos um recorte ficcional inspirado na memória não oficial de uma cidade em transformação, tanto de sua paisagem como das mentalidades que a habitavam. O projeto reinventa esse momento de nascimento de uma cultura urbana dissidente em meio às contradições entre a provocação contracultural dos anos 1970, uma sociedade reacionária e o vigor repressivo do período ditatorial.

Sobre dramaturgia e direção - Renato Turnes Da Cabeça Aos Pés nasce da minha pesquisa sobre a memória da experiência LGBTQIAPN+ na Florianópolis dos anos 1970, iniciada no documentário Homens Pink. Durante esse processo surgiram lugares, personagens e narrativas que contradizem a versão hegemônica que determina esse território como exclusivamente conservador, religioso, aristocrático e provinciano. O roteiro reimagina uma vida marginal, diversa, moderna e libertária que desafiava os padrões impostos pela sociedade local da época. Esse objetivo encontra na figura do jornalista Beto Stodieck e no episódio histórico da prisão de Gilberto Gil um ponto de convergência criativo. As personagens e a maior parte das ações principais do roteiro se baseiam em fatos documentados ou relatos de testemunhas, mas a proposta mantém liberdade absoluta para a reinvenção dramática. A narrativa se estrutura a partir das experiências vividas pelos protagonistas em deslocamento. Essa deriva, que é também fuga e busca, adquire ao longo da história um objetivo político concreto, sem deixar de funcionar como metáfora de percursos interiores. Vínculos se formam e se rompem, subjetividades se aprofundam e conflitos emergem, produzindo transformações ligadas à experiência da repressão, sem deixar de revelar uma experiência de autodescoberta. A intimidade do carro se contrapõe ao contato com o mundo nas experiências fora dele, em praças escuras, bares suspeitos, festas clandestinas e espaços da cultura alternativa. O tom flutuante do roteiro permite o trânsito entre o percurso existencial do road movie, o deboche do cinema marginal brasileiro, a estética do cinema dos anos 1970, a produção queer, o thriller político e a abordagem documental. Por fim, o projeto busca uma representação de personagens dissidentes que escape às imagens de controle da heterocisnormatividade, celebrando o direito à memória de pessoas LGBTQIAPN+ pioneiras, combativas, poderosas e resistentes, inseridas em narrativas de afirmação, potência e vitória.
Da Cabeça Aos Pés - Moodboard

























